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Odum, Geórgia – O mel mais caro dos EUA vem destes pântanos do sul, onde a árvore conhecida como tupelo branco se contorce para fora de uma água tão escura que não dá para dizer se é um jacaré ou uma cobra que surgiu na superfície.

Por duas preciosas semanas na primavera nesta parte do sudeste da Geórgia e no norte da Flórida, os tupelos brancos dão flores pálidas e frágeis, parecidas com pequenos pompons. Os apicultores instalam suas colmeias ao longo das margens, ou às vezes as colocam para flutuar em jangadas. Então as abelhas começam a trabalhar, fazendo um mel com gosto e aspecto únicos.

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O bom mel de tupelo tem uma tonalidade verde clara sob a luz solar, especialmente quando acaba de sair do favo. O primeiro gosto é de canela, com um toque de anis. Ele é substituído por um suspiro de jasmim e algo ligeiramente cítrico – casca de tangerina, talvez? O mel é tão suave, leve e amanteigado que o único movimento lógico é pegar a segunda colherada.

“Adoro, mas não é algo que eu possa me dar ao luxo de consumir regularmente”, disse Kelly Fields, recentemente nomeada a confeiteira destaque do ano pela Fundação James Beard por seu trabalho no restaurante de sua propriedade em Nova Orleans, o Willa Jean. “Ele é tão sagrado aqui que, se eu conseguisse um pouco, provavelmente o guardaria em casa.”

Os apicultores que perseguem a flor do tupelo são uma raça ferozmente competitiva e em perigo de extinção. Há provavelmente menos de 200 apicultores produzindo o mel em quantidade notável na Flórida e na Geórgia, segundo estimativas de compradores e autoridades agrícolas. Isso não inclui centenas de outros que talvez escondam algumas colmeias ao longo do rio.

A temporada de coleta de mel acabou, e foi ruim, pelo menos na Flórida. Em outubro, o Michael, o primeiro furacão de categoria 5 a atingir os Estados Unidos em 26 anos, causou estragos no coração da região do tupelo. As caixas de madeira das abelhas foram destruídas ou levadas pelo vento. As árvores perderam suas folhas. As flores surgiram cinco meses mais cedo, e muitas nem apareceram.

“Coloque desta forma: as árvores apanharam bastante este ano, por isso a florada foi prejudicada”, disse Ben Lanier, de 61 anos, cuja família produz mel nos pântanos da bacia do Rio Apalachicola, no Condado de Gulf, Flórida, há três gerações.

Lanier mantém cerca de 500 colmeias. Uma boa colmeia pode produzir 45 quilos de mel, mas não sem as flores. Lanier foi capaz de coletar apenas um pouco de tupelo este ano. Portanto, a fim de fazer uma boa exibição em maio no Tupelo Honey Festival em Wewahitchka, Flórida, ele teve de usar reservas do ano passado, quando a produção foi abundante.

Em 2018, ele conseguiu cerca de US$ 40 por quilo. Este ano, houve uma guerra de preços entre os nove fornecedores do festival. Ele acabou vendendo o seu por US$ 12 – uma pechincha para um mel que pode chegar a US$ 50,50 por quilo on-line.

Árvores de tupelo, em um pântano da GeorgiaThe New York Times

Os homens e as mulheres que fazem o tupelo têm outras preocupações além do clima. O desenvolvimento invasivo e as batalhas entre a Flórida e a Geórgia pelo uso da água reduziram o número de árvores. Há uma ameaça constante de ácaros e doenças.

“Você tem de realmente lutar contra a depressão. Ganhar a vida com insetos é uma coisa incerta”, disse Lanier.

Aqui na Geórgia, a cerca de 420 quilômetros de distância da casa de Lanier, as árvores de tupelo floresceram como loucas na bacia do Rio Altamaha. A Flórida geralmente faz cerca de 15 vezes mais mel que a Geórgia, mas este ano essa relação vai mudar.

Se você quiser entrar em um dos grandes conflitos culinários do Sul, tente dizer a um apicultor da Flórida que o tupelo da Geórgia também é bom.

“É impossível fazer um bom mel tupelo na Geórgia. Pergunte à minha esposa, se você não acredita em mim. Ele é muito especial. O tupelo real é raro e posso dizer que não vem da Geórgia”, disse Lanier.

Ted Dennard, um dos maiores compradores de tupelo a granel no país, provou o mel de ambos os estados. A Flórida normalmente tem a vantagem, simplesmente porque produz mais. Mas este ano, disse ele, o melhor provavelmente virá da Geórgia.

Dennard é o fundador e apicultor-chefe da Savannah Bee Co. Ele vendeu 34 toneladas de tupelo no ano passado, algumas para atacadistas e o resto on-line ou em lojas. Isso inclui 170 caixas de tupelo “gold reserve”, que vem em garrafas e custa US$ 100, cada uma enrolada em um invólucro de bétula canadense e selada com cera das mesmas abelhas que fizeram o mel. Pode ser encontrado em lojas de luxo como a Bergdorf Goodman e a Neiman Marcus.

Fred Merriam, que produz o mel de tupelo na GeorgiaThe New York Times

O produto em suas prateleiras agora vem da Geórgia, e é mais do que 90 por cento puro tupelo. Medir o pólen em um lote de mel pode determinar se ele contém quantidades suficientes de néctar de tupelo para se qualificar como tal. A Comissão Internacional de Botânica Apiária exige que o mel contenha mais de 45 por cento de néctar de uma única fonte a fim de ser rotulado como um mel varietal, como acácia ou tupelo.

Para manter o mel o mais puro possível, o apicultor precisa monitorar diariamente a saúde das flores e verificar os quadros dentro das colmeias regularmente, retirando-os quando estão cheios de mel. Quando as flores do tupelo começarem a murchar, as abelhas irão para a florada seguinte, que aqui é frequentemente de arbustos de gallberry.

“Nas muitas vezes em que as pessoas me enviam mel, pensam que é de tupelo, mas na verdade é basicamente de gallberry”, disse o dr. Vaughn Bryant, diretor do laboratório de palinologia da Universidade Texas A&M.

Ele nunca testou um tupelo da Geórgia que tivesse mais de 52 por cento de tupelo. As amostras da Flórida tiveram maior contagem desse pólen, mas ele admite que nem todo produtor envia mel para teste.

Frederick Merriam Jr., de 48 anos, é um dos apicultores que conseguem ler o pântano tão de perto que sabem exatamente como produzir um ótimo tupelo na Geórgia sem ter de enviá-lo a um laboratório. Ele testou seu mel quando começou, avaliado como 86 por cento puro. Mas diz que não se importa mais.

“É fácil falsificar alguns méis, mas o tupelo é inconfundível”, disse ele.

Ele e sua esposa, Jackie, são donos de Apiário West Meadow, em Tunbridge, Vermont. Têm nove filhos que vivem uma vida nômade, tendo aulas em casa. Durante seis meses, a família fica em uma casa do sudeste da Geórgia, perto das árvores de tupelo, cercada por colmeias multicoloridas. As crianças ajudam no negócio. Em junho, a família se muda para o norte de Vermont e então volta em novembro.

As abelhas se mudam também. Depois que Merriam terminou a temporada de mel do sul em maio, transportou as colmeias por trailer para o Maine para ajudar a polinizar a cultura de mirtilo silvestre.

Merriam vende seu tupelo apenas por atacado, com exceção de algumas garrafas em sua loja em Vermont. “Nunca temos o suficiente. Já está vendido antes de ser produzido.”

Para obter o mel, ele coloca as colmeias em 18 pontos secretos perto do Rio Altamaha. Os proprietários de terras com quem fez amizade permitem que ele as coloque lá, e ficam felizes com alguns frascos de mel em troca. Ele processou apenas cerca de 7.260 quilos este ano. Os pântanos estavam mais secos que o normal, disse ele, e o furacão também havia atingido partes do território do tupelo na Geórgia.

Cerca de 10 por cento do seu mel vão para Brandon Tai, de 42 anos, ex-comerciante de commodities e vendedor de vinhos em Atlanta que se voltou para a apicultura e a venda de mel em tempo integral em 2017. Tai tem cerca de 150 colmeias em 15 bairros ao redor da cidade, e leva algumas para as montanhas da Geórgia no verão, em busca do sourwood, outro mel raro e caro. Sua empresa, a Honey Next Door, vende mel nos mercados de agricultores e em festivais. Ele também tem um grande negócio de encomendas pelo correio.

O mel de sourwood, com toques de caramelo e de gengibre, tem seus fãs. Mas, para gente como Merriam, nada se compara ao tupelo.

“Você quase pode saborear a cultura da floresta e a doçura do pântano. É uma daquelas coisas que são a alma do lugar”, disse ele.

Mel de tupelo na Honey Next Door, EUAThe New York Times



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