Chino Darín herdou sobrenome do pai, mas o brilho é todo dele em “O Anjo”

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Filho de Ricardo, Chino Darín converteu-se rapidamente num fenômeno do cinema argentino. Em oito anos, contabiliza 19 papéis em filmes e séries. Os últimos anos têm sido muito ativos para ele, que emenda um filme no outro e não para de filmar. E, ao contrário do pai, que deu cara ao cinema argentino com filmes sobre os homens comuns da classe média, muitos pequenos dramas familiares e só uma ou outra história mais política (O Segredo dos Seus Olhos), Chino tem feito escolhas radicais. O prisioneiro político de Uma Noite de 12 Anos, o criminoso que forma dupla com o protagonista de El Ángel/O Anjo. O longa de Luis Ortega estreia nesta quinta, 18.

Chino conversa com o jornal O Estado de S. Paulo pelo telefone. Antes de mais nada, o nome. No registro é Ricardo Mario Darín, nascido em 14 de janeiro de 1989, em San Nicolás de Los Arroyos, Argentina. Tem 30 anos, portanto. À pergunta sobre como conduz sua carreira, como escolheu esses papéis em particular, responde – “Não tenho nenhum método racional. As propostas vêm, e elas aumentaram muito. Leio os roteiros. Não penso no que esse ou aquele personagem poderá fazer pela minha carreira. Não é assim que funciona. O que há é um clique, um desejo de dar vida a essas figuras que, ali no papel, são nebulosas. Há também o desejo de trabalhar com pessoas. Com Luis (Ortega), embarco de vez.”

Ortega é o diretor de El Ángel. Antes desse filme, Chino fez com ele a série de TV História de Um Clã. “Estabelecemos uma relação de confiança e cumplicidade que me permite saltar no escuro, se for caso, com ele. Luis sabe explorar toda a minha potência como ator. Permite que as emoções fluam. Com ele encontro uma espécie de vertigem, me sinto estimulado a ir sempre mais longe.” O repórter cita uma cena de O Anjo. O personagem é esse jovem que tem uma facilidade muito grande para entrar nas casas, e roubar. Carlito é seu nome (vivido por Lorenzo Ferro) e ele mantém sua inocência. Rouba, e logo em seguida se desfaz das coisas. Gosta da emoção, do perigo. E aí Ramón, o personagem de Chino, o leva à sua casa. Apresenta seu pai, a mãe. Acaba a inocência, Carlito vira adulto, de chofre, e inicia outra fase de sua vida de criminoso. “Essa cena que você cita é decisiva, é o momento de virada do filme. Tive a ideia, e Luis gostou, de transformar aquilo num jogo de gato e rato. O gato no covil dos cachorros, talvez até dos lobos. Todo mundo, naquela cena, representa de forma muito consciente. Há um jogo de olhares, de gestos muito significativos. É a típica cena em que o toque de Luis (Ortega) faz o filme subir de patamar.”

Uma Noite de 12 Anos e El Ángel são histórias dos anos 1970, mas não poderiam ser mais diversas. Uma reconstituição das experiências do ex-presidente José ‘Pepe’ Mujica no período em que foi preso político da ditadura militar no Uruguai. A trajetória erotizada de um garoto de classe média no crime. Há uma dimensão homoerótica nessa história. Ramón chama Carlito de ‘rubio’, loiro. Na forma como fala, ele, machão, sugere que o outro seja mulherzinha. O anjo, que é tudo, menos anjo, reage. “Interagir é fundamental para um ator. O parceiro ou a parceira na cena te estimulam a ir ao limite, e quando há química é gostoso de fazer. Luis (Ortega) sabe fazer esse jogo como ninguém. Era ótimo contracenar com Lorenzo (Ferro). Nos divertimos muito. Uma Noite de 12 Anos foi outra coisa. Foi um dos filmes mais difíceis que já fiz, talvez o mais. Para servir à história que estava contando, Álvaro (o diretor Álvaro Brechner) seguiu outro caminho. Para mim, como ator, o filme foi mesquinho. A gente ficava ali, confinado nas celas, uma experiência de solidão. Faltava o toque, a troca. Foi duro.”

Impossível entrevistar Chino Darín sem falar no pai dele. Até que ponto Ricardo foi uma inspiração? “Todo pai é sempre inspiração para os filhos, seja para o bem ou para o mal. Mas veja que não era só meu pai que era ator na família. Meus avós, minha tia, meus primos. Comigo, somos sete nessa coisa de representar. Então, veja que eu sempre vivi nesse meio. Sets de TV e cinema, jantares de madrugada depois das funções de teatro. Tudo isso passou a ser muito natural para mim. Numa época, até pensei em ser engenheiro, mas não durou. Ingressei na faculdade de cinema, para estudar direção. E, paralelamente, frequentava o taller (oficina) de interpretação de Raul Serrano, o que foi decisivo para mim. Estava nas duas pontas do cinema, à frente e atrás das câmera. Prevaleceu a interpretação, mas nada impede que eu ainda venha a dirigir.”

Chino comenta como foi trabalhar com um diretor brasileiro – Marco Dutra. Fizeram juntos O Silêncio do Céu. “Marco me propôs uma coisa que nunca havia feito antes. Para achar o tom do meu personagem, ele me mostrou um clássico de zumbis. Nunca havia trabalhado desse jeito, com um diretor tão ligado no cinema de gênero que o usava como referência até com os atores.” Desde que carreira engrenou, Chino tem vivido entre a Argentina e a Espanha, mas agora tem outro motivo para não sair da ponte aérea. “Mi novia”, a namorada, Ursula Corberó. Agora mesmo – a entrevista realizou-se na segunda, 15 – ficou meses com ela.

Algumas perguntas básicas. Tem lido muito? “Infelizmente, não. Não paro de ler roteiros, ou coisas especializadas, ligadas aos papéis. Mas a leitura pelo prazer, romance, poesia, tem faltado tempo.” Algum filme recente marcante? “Dogman (de Matteo Garrone). Foi um filme que mexeu comigo e me pegou enormemente. A vulnerabilidade daquele homem, sua ligação com os cachorros, a desolação da periferia em que vive. Gostei demais.” Ao comentar a interação com colegas atores, Chino comparou o ato de representar ao futebol. “A gente faz tabelinhas, e quando funciona é gol.” Qual é seu time? “River (Plate).” Faz uma pausa, e acrescenta – “Campeão da Libertadores, hombre.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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